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Depressão

A depressão é uma das doenças psiquiátricas mais frequentes. Pensa-se que uma em cada quatro mulheres e um em cada dez homens, podem vir a ter crises depressivas durante a sua vida. Ao contrário do que se pensava até meados do século XX, as crianças e adolescentes também podem ser afectados.

Uma perturbação depressiva é uma doença que envolve o corpo, o humor e os pensamentos. Afecta os instintos, a maneira como a pessoa come e dorme, a visão que tem de si e o modo de pensar sobre as coisas. Não é o mesmo que “estar em baixo”, não é um sinal de fraqueza pessoal, nem algo que se possa controlar. As pessoas com uma perturbação depressiva não conseguem simplesmente “recompor-se” ou “animar-se”.

O seu diagnóstico passa muitas vezes despercebido, quer por falta de reconhecimento da depressão como doença, quer porque os seus sintomas são atribuídos a outras causas (doenças físicas, stresse, etc.).

Sem tratamento, os sintomas podem permanecer por semanas, meses ou anos. Felizmente, com o tratamento apropriado, é possível ajudar a maior parte das pessoas que sofre de depressão.

Segundo um estudo epidemiológico de grande escala realizado nos EUA em 2003, o National Comorbidity Survey Replication, a probabilidade de um indivíduo vir a sofrer de depressão major durante a vida é de 16,2%. Quando avaliados em fase depressiva a gravidade dos sintomas em mais de 50% dos indivíduos é severa ou muito severa, tendo sido constatado que 96,9% dos doentes apresenta perturbação funcional (social, profissional ou familiar). Apesar disso os autores verificaram que só 21,6% destes indivíduos receberam o tratamento adequado.

As perturbações depressivas constituem um grupo de patologias com alta e crescente prevalência na população geral. Segundo a Organização Mundial de Saúde, “em 2020 a depressão será a segunda causa de prejuízo causado por doença medido pelo Disability Adjusted Life Years, ficando apenas atrás das doenças cardíacas”, nos países desenvolvidos serão mesmo a primeira causa.

As perturbações depressivas são caracterizadas pelo seu curso recorrente, muitas vezes crónico. Prejudicam a qualidade de vida dos indivíduos afectados mais do que qualquer outra doença, e frequentemente, conduzem ao suicídio e para-suicídio. Mais de 15% dos doentes com depressão major cometem suicídio. Os presentes altos índices de suicídio são considerados como importantes indicadores do subdiagnóstico e subtratamento da depressão.

Os diferente significados da palavra depressão

Estado afectivo normal: a tristeza...

o Os sentimentos de tristeza e alegria dão cor ao fundo afectivo da vida psíquica normal. A tristeza constitui-se na resposta humana universal às situações de perda, derrota, desapontamento e outras adversidades. Esta resposta tem valor adaptativo, do ponto de vista evolutivo, uma vez que, através do retraimento se poupam energia e recursos para o futuro. Por outro lado, constitui um sinal de alerta, para os demais, de que a pessoa está a precisar de companhia e ajuda. As reacções de luto, que se estabelecem em resposta à perda de pessoas queridas, caracterizam-se pelo sentimento de profunda tristeza, exacerbação da actividade nervosa vegetativa (suores, palpitações, etc.) e inquietude. A reacção de luto normal pode estender-se até um ou dois anos, devendo ser diferenciada dos quadros depressivos propriamente ditos. No luto normal a pessoa, usualmente, preserva certos interesses e reage positivamente ao ambiente quando devidamente estimulada. Os sentimentos de culpa no luto limitam-se a não ter feito todo o possível para auxiliar a pessoa que morreu, outras ideias de culpa estão geralmente ausentes

Sintoma

o Enquanto sintoma a depressão pode surgir nos mais variados quadros clínicos, entre os quais: perturbação de stresse pós-traumático, demência, esquizofrenia, alcoolismo, doenças sistémicas, etc. Pode ainda ocorrer como resposta a situações stressantes ou a circunstâncias sociais e económicas adversas.

Síndroma

o Enquanto síndroma, a depressão inclui não apenas alterações do humor (tristeza, irritabilidade, falta da capacidade de sentir prazer, apatia), mas também uma gama de outros aspectos, incluindo alterações cognitivas (ex: falta de concentração ou de memória), psicomotoras (ex: inibição) e vegetativas (ex: alterações do sono ou do apetite).

Doença

o Como doença, a depressão tem sido classificada de várias formas, dependendo do período histórico, da preferência dos autores e do ponto de vista adoptado. Entre os quadros mencionados na literatura actual encontram-se: perturbação depressiva major, perturbação depressiva recorrente, distimia, perturbação bipolar, etc.


Como se manifesta?

Flutuações do afecto em resposta a situações do quotidiano acontecem em todos os seres humanos, e sentimentos de tristeza, frustração ou desânimo são comuns como resposta normal às vicissitudes da vida. Eventualmente as respostas afectivas podem assumir um carácter inadequado ou patológico, quer a nível da intensidade, da duração ou das circunstâncias desencadeadoras. Quando isso acontece estamos perante uma perturbação do humor.

A depressão não deve ser confundida com sentimentos tristeza como “estar em baixo” ou “desmoralizado”, que são geralmente reactivos a acontecimentos da vida e transitórios. Trata-se duma doença: uma perturbação do humor ou seja uma disposição emocional a longo termo, duradoura, que afecta significativamente o rendimento no trabalho (ou escolar), a vida familiar, afectiva e o simples existir do doente, que sofre intensamente.

Embora a característica mais típica dos estados depressivos seja a proeminência dos sentimentos de tristeza ou vazio, nem todos os doentes relatam essas sensações. Muitos referem, sobretudo, a perda da capacidade de experimentar prazer nas actividades em geral e a redução do interesse pelo meio externo. Frequentemente associa-se à sensação de fadiga ou perda de energia. No diagnóstico da depressão levam-se em conta os sintomas psíquicos, os fisiológicos e evidências comportamentais:

  • Sintomas psíquicos:

  • Humor depressivo: É a sensação de tristeza, autodesvalorização e sentimentos de culpa. Os pacientes costumam aludir ao sentimento de que tudo lhes parece fútil, ou sem real importância. Acreditam que perderam, de forma irreversível, a capacidade de sentir alegria ou prazer na vida. Tudo lhes parece vazio e sem graça, o mundo é visto “sem cores”, sem matizes de alegria. Em crianças e adolescentes, sobretudo, o humor pode ser irritável, ou “rabugento”, ao invés de triste. Certos pacientes mostram-se antes “apáticos”, referindo-se muitas vezes ao “sentimento da falta de sentimentos”. Constatam, por exemplo, já não se emocionarem com a chegada dos netos, ou com o sofrimento de um ente querido, e assim por diante. O deprimido, com frequência, julga-se um peso para os familiares e amigos, muitas vezes invoca a morte para aliviar os que o assistem na doença. São frequentes e temíveis as ideias de suicídio. As motivações para o suicídio incluem distorções cognitivas (perceber quaisquer dificuldades como obstáculos definitivos e intransponíveis, tendência a superestimar as perdas sofridas) e ainda o intenso desejo de por fim a um estado emocional extremamente penoso e tido como interminável. Os pensamentos de suicídio variam desde o remoto desejo de estar simplesmente morto, até planos minuciosos de se matar (estabelecendo o modo, o momento e o lugar para o acto). Os pensamentos relativos à morte devem ser sistematicamente investigados, uma vez que essa conduta poderá prevenir actos suicidas, dando a possibilidade ao doente de expressar o que está a sentir, podendo-se abrir assim uma “via alternativa”.

  • Anedonia: Ou, por outras palavras, redução da capacidade de experimentar prazer na maior parte das actividades, antes consideradas como agradáveis. As pessoas deprimidas podem relatar que já não se interessam pelos seus passatempos favoritos. As actividades sociais são frequentemente negligenciadas, e tudo lhes parece agora ter o peso de terríveis “obrigações”.

  • Fadiga ou sensação de perda de energia: A pessoa pode relatar fadiga persistente, mesmo sem esforço físico, e as tarefas mais leves parecem exigir esforço substancial. O tempo de execução das tarefas habituais torna-se muito mais prolongado.

  • Diminuição da capacidade de pensar, de se concentrar ou de tomar decisões: decisões antes quase automáticas parecem agora custar esforços desmedidos. Um paciente pode-se demorar infindavelmente para terminar um simples relatório devido à incapacidade em escolher as palavras adequadas. O curso do pensamento pode estar notavelmente lentificado. Professores experientes queixam-se de não conseguir preparar as aulas mais rotineiras; programadores de computadores pedem para ser substituídos pela actual “incompetência”; crianças e adolescentes apresentam quebras de rendimento escolar, geralmente em função da fadiga e dificuldades de atenção, somado ao desinteresse generalizado.

  • Sintomas fisiológicos:

  • Alterações do sono: o mais frequente é a insónia, podendo ocorrer também hipersonolência. A insónia é, tipicamente, intermédia (acordar no meio da noite, com dificuldades em voltar a adormecer) ou terminal (acordar mais cedo que o habitual). Pode também ocorrer insónia inicial. Com menor frequência, mas não raramente, os indivíduos deprimidos queixam-se de sonolência excessiva

  • Alterações do apetite: o mais comum é a perda do apetite (anorexia), mas pode ocorrer também aumento do apetite. Muitas vezes a pessoa precisa esforçar-se para comer, ou ser ajudada por terceiros a alimentar-se. Um sinal observável em crianças é o não atingir o ganho de peso esperado para a sua idade. Algumas formas especificas de depressão são acompanhadas de aumento do apetite, que se mostra caracteristicamente aguçado por hidratos de carbono (doces).

  • Redução da libido: ou por outras palavras, do interesse sexual, é outra das características habituais na depressão.

  • Sintomas físicos: são muito comuns na perturbação depressiva, incluindo dores articulares, nos membros ou na coluna, problemas gastrointestinais, cefaleias, tonturas ou mesmo dor torácica. Segundo um estudo da Organização Mundial de Saúde, 69% dos doentes que se dirigem a um médico de cuidados primários apresentando critérios de depressão major, apenas se queixam destes sintomas físicos, contribuindo assim para o subdiagnóstico da depressão. Demonstrou-se também que a presença e a gravidade dos sintomas físicos piora o prognóstico da perturbação depressiva.

  • Evidências comportamentais:

  • Isolamento social: o isolamento social pode significar muitas coisas, desde depressão, a fobia social, passando pela insegurança. Trata-se, no entanto, de um sintoma muito frequente de depressão, causado não só pelo desinteresse generalizado, mas também por uma baixa auto-estima sentido “que ninguém se interessa por mim”.

  • Crises de choro: embora não sejam uma evidência de depressão, são comuns e podem ser consideradas como uma forma de coping com a angústia.

  • Comportamentos suicidas: mais de 90% dos suicídios ocorrem no contexto de doença psiquiátrica, dos quais as perturbações depressivas são as que mais contribuem.

  • Alterações psicomotoras: o mais frequente é a inibição psicomotora e lentificação generalizada, sendo, porém, possível observar-se em certos casos agitação psicomotora. Com frequência os pacientes referem uma sensação de peso nos membros.

As várias formas de Depressão:

 

O episódio depressivo (depressão major) é caracterizado por humor deprimido, em que o indivíduo comunica através da fala, da mímica e do comportamento, uma vivência de dor e abatimento (manifesta um aumento da irritabilidade, acessos de cólera, frustração, tristeza). Esta vivência é diferente da tristeza normal a que cada um pode estar sujeito nas situações desfavoráveis da vida, tanto em intensidade e duração como pela sua natureza. Outros sintomas associados a estes são: a diminuição ou desaparecimento do interesse e do prazer em todas ou quase todas as actividades habituais, como por exemplo, estar na presença de outros, fazer desporto, ou determinado hobbie. Pode observar-se abrandamento da actividade psíquica e motora, sentimentos de inadaptação, inutilidade, desespero e culpa. A falta de apetite (e perda de peso) e as perturbações do sono são comuns, assim como os pensamentos de morte, e por vezes ideias ou tentativas de suicídio. Fala-se de perturbação depressiva recorrente quando ocorreram 2 ou mais episódios depressivos, separados por um período de remissão. Sabe-se hoje em dia que mais de 60% das pessoas que tem um episódio depressivo irá ter outro nos próximos 20 anos e quanto maior for o número de recorrências menor será o tempo entre as mesmas.

O termo distimia indica uma forma de depressão ligeira crónica que perdura por um período mais longo. Embora possa acontecer a qualquer um sentir-se desmoralizado, triste ou inadaptado, quem sofre de distimia tem sintomas depressivos quase diariamente e durante grande parte do dia, por um período mínimo de dois anos. Estes indivíduos podem ainda mostrar pouca auto-estima, sentir-se constantemente cansados, ter dificuldades de concentração ou de tomada de decisões e experimentar uma sensação de desespero.

Perturbação depressiva bipolar

As várias formas de perturbação bipolar afectam entre 1% e 6% da população da União Europeia e têm uma enorme peso social, incluindo o risco de morte prematura por suicídio. O seu diagnóstico incorrecto, ou tardio, pode levar ao atraso da instituição do tratamento adequado (substancialmente diferente da depressão unipolar) e ao prolongamento do sofrimento do indivíduo e dos impactos sociais.

A perturbação bipolar (também chamada doença maníaco-depressiva), é uma doença psiquiátrica grave, que causa mudanças extremas do humor, da energia e do funcionamento geral. Caracteriza-se por ciclos de depressão alternando com episódios maníacos. Uma outra forma de apresentação é a presença de episódios mistos, em que são encontrados simultaneamente critérios diagnósticos tanto para episódio depressivo como para episódio maníaco ou hipomaníaco.

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O que causa a depressão?

A etiologia da depressão, a perturbação do afecto mais estudada, está longe de ser totalmente compreendida. Muitos casos de depressão ocorrem após determinados eventos stressores, no entanto nem todos os indivíduos ficam deprimidos nessas circunstâncias. A probabilidade de certa pessoa vir a sofrer de uma perturbação depressiva depende de uma complexa interacção entre factores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais. Ou seja, depende da intensidade e duração do evento stressor, do substracto genético do indivíduo, das suas estratégias e reacções de coping e da rede de suporte social em que se insere.

O que fazer?

O tratamento da depressão pode ser feito de várias formas, com medicamentos, com psicoterapia, com actividades que visam promover a auto-estima, com apoio a nível familiar, gestão de conflitos ou com uma combinação de vários destes métodos.

O tratamento é eficaz, pode prevenir as consequências negativas da depressão como o suicídio, o insucesso escolar, a ruptura de relações afectivas, etc.

Diogo Guerreiro, 2007 



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