Perturbações do controlo dos esfincteres

Perturbações de Eliminação
Enurese & Encoprese

Diana Frasquilho

O controlo dos esfíncteres faz-se, normalmente, entre o 2º e o 4º anos de vida, acompanhando uma fase de grandes mudanças físicas, cognitivas e sócio-afectivas em que a criança deixa de ser um bebé, para evoluir progressivamente mais capaz de usar os seus sentidos e as experiências quotidianas para se conhecer e, conhecer o mundo que o rodeia, dando assim passos decisivos no caminho da autonomização.

A aprendizagem da higiene

A maioria das crianças começa a ser capaz de largar as fraldas durante o dia até aos dois anos e meio, três anos, com acidentes ocasionais e está preparada para tirar as fraldas de noite até aos quatro anos. Esta aprendizagem representa uma tarefa de desenvolvimento importante durante a fase pré-escolar a par de outras competências de autonomia ligadas ao sono, à alimentação e à higiene diária e é valorizada pela sociedade como um sinal de maturidade e adaptação, e pelos pais como um primeiro degrau no sentido da autonomização da criança.


Processo de aquisição do controlo dos esfíncteres

Entre os dois e quatro anos as crianças adquirem o reconhecimento da necessidade de urinar e a capacidade de reter a urina alguns minutos. Até aos quatro anos e os cinco anos as crianças são capazes de iniciar o acto de urinar voluntariamente seja qual for o volume e urina na bexiga.

Quanto as fases de desenvolvimento do controlo das fezes são menos claras. O controlo das fezes, pelo próprio processo fisiológico envolvido, é geralmente atingido antes do controlo da urina, normalmente na segunda metade do primeiro ano. Se a criança tem hábitos intestinais muito regulares e pais atentos, que a colocam no bacio à hora provável (geralmente após as refeições), a transição para a fase de fazer a maioria das evacuações no bacio é rápida. Geralmente entre os 24 e os 30 meses a criança é capaz de antecipar em alguns minutos a necessidade de evacuar.


Enurese

Enurese é uma derivação latina do termo grego onourein, que significa “urinar em”. A identificação da enurese como problema é geralmente feita pelos pais, quando consideram ultrapassada a fase que estimam adequada para a aprendizagem dos hábitos de higiene, ou pelos educadores de infância.

Enurese define-se como a passagem involuntária de urina para as roupas ou cama, depois de idade em que a criança devia ter feito a aprendizagem do controlo dos esfíncteres (a idade cronológica da criança deve ser de no mínimo 5 anos, ou, para crianças com atrasos do desenvolvimento, uma idade mental de no mínimo 5 anos), e na ausência de outra patologia orgânica.

Para corresponder a um diagnóstico de Enurese, a micção deve ocorrer no mínimo duas vezes por semana por pelo menos 3 meses, ou então deve causar um sofrimento ou prejuízo significativo no funcionamento social, académico ou outras áreas importantes na vida do indivíduo


Encoprese

Não sendo tão frequente quanto a Enurese, a Encoprese é no entanto uma perturbação relativamente comum na clínica pediátrica e psicológica.

É uma perturbação caracterizada pela passagem de fezes formadas, semiformadas ou liquidas, em condições ou local inapropriados, em crianças com mais de 4 anos de idade


Origem das perturbações de eliminação

Apesar da procura de causas genéticas, acredita-se que é a combinação de vários factores que explica a maioria dos casos individuais.

Alguns determinantes psicológicos até agora estudados sugerem que, a origem da perturbação pode advir de: falhas na aprendizagem e manutenção dos hábitos de higiene, aprendizagem prematura, tardia ou pouco sistemática; acontecimentos de vida stressantes e ansiedade.

Outro factores como a associação da eliminação com dor e as experiências aversivas durante a aprendizagem e manutenção dos hábitos de higiene podem, nalguns casos, ser causa directa.

A atitude dos pais em relação a enurese/encoprese também é um determinante psicológico muito importante, uma vez que a aquisição da higiene é um desafio as competências educacionais dos pais. A atitude dos pais quando é pouco correcta e sistemática, ou quando centra mais a atenção nos insucessos do que nos sucessos da criança, favorece a emergência destas perturbações.


Tratamento

Existe uma grande diversidade de abordagens que apresentam medidas terapeuticas eficazes para o tratamento das perturbações de eliminação.

Salientam-se além da terapia farmacológica, as medidas gerais de (Re) educação que ressaltam a importância do desenvolvimento de capacidades individuais da criança no sentido da autonomia com o apoio activo e permanente da família; as Psicoterapias de Orientação Dinâmica – a conducta como expressão de uma perturbação interna ou relacional; as Terapias Comportamentais e Aprendizagem Social – que visam a eliminação do comportamento alvo e a sua substituição por outro mais adequado.


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